Chegamos tarde! Apesar de encontrarmos as cadeiras viradas
sobre as mesas, ainda assim, nos sentamos e com aquele olhar boêmio, já meio
com sono, observamos os restos do banquete que findara há pouco. Cá conosco
imaginamos: deve ter sido uma grande farra. Garrafas derramadas, taças meio cheias
e sobras de todo tipo denunciavam a fartura. E, assim, com os cotovelos
apoiados sobre a mesa contemplamos tudo aquilo. Lamentamos pelo que poderia ter
sido e pelo que acreditamos ter perdido.
A lua alta no céu denuncia a hora avançada, ao longe, se houve
até mesmo o cantar de um galo... os cães ladram a cada carro que passa. A brisa
fria da madrugada nos arrepia. Uma sensação estranha nos toma, estamos tristes.
A festa acabou, a banda não tocava mais. Os que banquetearam já haviam partido
e ali apenas nós e os restos.
Balbuciamos:
--- Deve ter sido uma grande farra.
Copos de whisky, charutos descansando nos cinzeiros deixavam
subir os últimos fios de fumaça ... deve realmente ter sido uma grande farra.
Levantamos e caminhando pelo salão observamos cada detalhe, mais por
curiosidade que por admiração, os lustres de cristal, as cortinas... tudo nos
remetia ao esplendor do que ali houvera.
Havia pouco que os automóveis partiram queimando petróleo, o
mesmo petróleo que sustentava a fartura que imaginamos ter havido naquilo que
críamos uma grande farra. Quão tamanha a nossa decepção. Chegamos tarde!
Ficamos lá, cotovelos sobre a mesa, mãos no queixo, não
adormecidos, mas dormentes, anestesiados. Por um longo tempo nos deixamos
embriagar pelas emoções e olhamos, quase sem ver, para tudo aquilo. Até que
despertamos deste estado de semiconsciência por um leve toque no ombro e a voz
do garçom que dizia:
--- Senhor, a conta!
Alexandre Buchaul
Cirurgião-dentista
Especialista em Ortodontia
Qualificação em Gestão em Saúde no SUS – TCERJ
Representante Regional do Sindicato dos Cirurgiões-Dentistas no
Estado do Rio de Janeiro (SCDRJ)
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